sábado, 18 de junho de 2011

CRÔNICA URBANA #6: UM CAFÉ, UM PÃO DE QUEIJO E CAMPOS ELÍSEOS

Caminhando por Resende encontro o seu Campos Elíseos. Na verdade esse encontro acontece religiosamente todo o sábado. Eu e minha esposa caminhamos por ali. Nada diferente, mas gostamos de andar pelo calçadão de Resende, não se compara a outros tantos calçadões que já caminhei mas marca aquele espaço popular onde as pessoas se olham e se encontram, tomam um café, joga conversa fora, come um pão de queijo, paga uma conta, compra uma coisa...uma feira, um mercado nos moldes do início do advento da burguesia na Idade Média e Viva o Capital...reclamamos do nosso salário mas não renúnciamos esta caminhada de feitiche consumista. Caminhamos, só caminhamos. Não compramos nada. De tanto olhar para o comércio, dá uma vontadissinha de passar o cartão, comprar aquele scaner que não tenho ainda. Hum...Tomo uma água, respiro, almoço no restaurante pimenta malagueta. A balança desse restaurante tem vista, não é cega como as outras...é o que me parece. Caminhando...não dá pra comer uma torta doce do Sabor e Arte? Está entendendo o que estou falando? Caminhar em Campos Elíseos é sinônimo de consumo. Saímos dali, pelo menos neste sábado, apenas com um saco de areia para gatos, mais shampoo para caspa, mais dois sabonetes glicerinados e só. Para quem não ia gastar nada. Amanhã tem mais caminhada.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

CRÔNICA URBANA #5: COMEÇAR DE NOVO EM RESENDE

Estou em Resende disposto a mais uma caminhada. Recordo-me da música de Ivan Lins - Começar de novo. Já reparou a letra. A única pessoa que eu posso contar neste começar de novo, sou eu mesmo. Caminho por uma rua no bairro Jardim Jalisco que tem como cenário o pico das Agulhas Negras. Muita beleza. Isso é que vale. A vida deve ser vivida sem ansiedade, com poesia, sem apavoramento. A música de Ivan é um tanto melancolica mas tem nos versos iniciais uma sapiência. Repito: "começar de novo, e só contar comigo, vai valer a pena." O resto da música é triste, prefiro ficar só com esta frase. Bom, quem sabe em alguma composição no futuro eu possa estar usando-a como incidente sonoro. Dobro uma esquina, suba uma ladeira, canto Hare Krishna. Esta croniquinha tem haver com dois dias. Hoje são 17, ontem foi 16 de junho. Ir em busca daquilo que você acredita é foda. Começar de novo em Resende. A sensação que estou começando do zero. Estou começando de novo mesmo. Daí tornei-me um artesão associado. Fui até a Associação dos Artesãos de Resende e me filiei. Em breve estarei expondo e vendendo os meus livretos artesanais em feiras. Se quiser conhecer um pouco do meu trabalho vai no blog: maloteca.blogspot.com. Legal é que a associação fica na antiga estação de trem. Onde tudo começa, onde tudo termina. Onde as pessoas chegam, onde as pessoas partem. "Começar de novo e só contar comigo", com a minha parte mais divina. "Vois sois deuses" - não foi isso que disseram. Busco esse deus interior. Contar com ele. Acredito que foi ele que me trouxe até aqui. Ainda não sei para quê ou sei e não quero dizer. Essa sensação de começar de novo...parece que eu voltei 20 anos na minha existência. Me vejo lá em Ipatinga, acreditando na vida, o que será de mim? Vivendo. Começando...ainda novo, tinha 17 anos, cheio de sonhos..Aí me vejo com quase 40 anos começando de novo como se tivesse 17 anos. Ainda cheio de sonhos. Será que a vida é um começando?
Busco novos paradigmas. Amanhã tem mais caminhada. Começar sempre de novo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

CRÔNICA URBANA #4: ENGENHEIROS PASSOS

A caminhada que diz hoje foi bem interessante. Conheci uma comunidade que não conhecia ainda. Engenheiro Passos. Pertence a Resende e é do lado de Queluz (Município do Estado de São Paulo). O que me motivou ? Fui para fazer um contato profissional com a Escola Estadual do lugar. Deixei meu CD Portfólio/Currículo para que no futuro possa servir para alguma coisa. Esta escola costuma abrir espaço para instrutores de arte por conta do Projeto Mais Educação que tem como objetivo, no meu entendimento, de incentivar o estudo dos alunos através da Arte. Maravilha nê. A arte é o meio.
Preciso saber mais sobre este projeto. Mas falando de Engenheiro Passos...Pacata comunidade, cortada pela Rodovia Dutra. Apresenta uma tranquilidade dos campos, clima de roça. No seu centro tem a Igreja de São João Batista que se encontra em festa neste mês de junho. Engenheiro Passos se assemelha a um arraiá - antigas comunidades do século XIX. As ruas, o formato das casas lembram casebres do século dos Senhores do Café. Casebres que parecem Armazens. Parece que as pessoas daqui se conhecem a muito tempo, guardam segredos, a impressão que dá é que quando alguém faz alguma coisa "errada" ou ela sai ou sofre um bocado de preconceito por ser diferente. Comunidades fechadas costumam serem mais moralistas que tem seu aspecto sócio-funcional. Assim os conflitos não ocorrem.
Este lugar deve guardar muitas histórias que merecem serem pesquisadas. Consulte o site http://www.vila-forte.com.br/ para saber mais. Estou aqui passando as minhas impressões poéticas em forma dessa breve crônica. Deve ser bom morar aqui para quem gosta de sossego e paz. Eu me acostumaria? Antes teria que me transformar, romper muitos paradigmas modernos. Ainda sou muito apegado aos gozos materiais e sensoriais do corpo. Conudo agora pratico o gozo da alma, do espírito. Estar aqui sentindo a tranquilidade desta comunidade e escrever sobre ela é um baita gozo da´lma. Vale a pena, quando a alma não é pequena.
Amanhã temos mais caminhada.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

CRÔNICA URBANA #3: ROBSON E A SUA DESERTA ILHA


Caminhando costumeiramente para chegar no meu local de trabalho, vi na calçada da E.E Conselheiro Rodrigues Alves, o conhecido Instituto, um jovem caído no chão. Por alguns segundos observei-o com compaixão e escrevi esta crônica:

Acordei no chão da calçada como se eu fosse um barco naufragado. Todos os meus amigos estão mortos-vivos, compulsivos em pedras sem brilho que são fumadas em cachimbos feitas de lata. Nunca vi algo tão horroroso e destrutivo. O sol escaldante batia em minhas costas. Olhei ao meu redor e não vi ninguém conhecido, estaria numa ilha deserta?
Estava sujo, com sede e fome, sentindo-me abandonado. Tornei-me invisível. Falava com as pessoas, mas ninguém me respondia, ninguém me dava atenção. O medo começou a me tomar conta.
Aquela pedra sem brilho algum... recordava-me que a tinha tocado com os lábios. Pura lascívia do diabo. Isso tudo para tentar ter coragem para chegar numa mina que há muito tempo eu olhava na escola. A biga de cigarro que observava no canto do paralelepípedo me convidava para uma fumada. Distrairia a minha fome por um tempo que parecia não passar. Horas, minutos, segundos não tinham mais sentido.
Mesmo sentindo muito frio tratei de arrumar um canto qualquer para dormir. Debaixo da ponte onde o rio passava estreito. Natália cadê você? O sono demorou a chegar.
Noutro dia ainda com muita fome tentei encontrar os caras que tinham me apresentado à pedra sem valor e sem brilho algum. No lugar onde eles estavam só encontrei um cachorro velho, uma gata manca e diversas balas estragadas que não serviam para nada. Nem para por em cima da linha do trem para serem estouradas.
Existe um lugar que os invisíveis frequentam e não incomodam, fazem até um favor para a sociedade. Estou falando do Mercado Municipal. Lá tem umas frutas e legumes que ficam pelo pátio à vontade. Quanto mais a gente cata, menos sujeira fica.
"Meu futuro não parecia tão bom... Na verdade prometia ser triste, com poucas esperanças de salvação." – Estava escrito num pedaço de papel de açougue sujo de sangue de carne. Será que tinha mais alguém nessa ilha? O maluco que escreveu isso, falava exatamente como eu estava me sentindo.
Apesar da fome ter passado por hora, desanimado chorei muito, mas nenhuma lágrima saia dos meus olhos. Estaria desidratado? Seco por dentro? Subitamente senti uma raiva de Deus: Foda-se o pai eterno. Por que ele me abandonou? Por que ele deixou que esta tragédia abatesse sob a minha vida? Eu não consigo entender. A única coisa que eu pensava era em fumar aquela pedra de novo para suportar a dor de não tê-la por perto. (...)
As alucinações tomavam conta de mim, o rio tinha se transformado em uma grande cobra amarela, todos aqueles que tentavam me ver ficavam cegos como se eu tivesse cabelos paralisantes como medusa. Arrebatamento? Não, eu não quero morrer aqui no meio da rua, sozinho. Eu não quero morrer. Não, eu não quero...(...) Outra noite se aproximava, mas muito mais assustadora. A solidão tomava conta do meu ser, de todo o meu ser. Quem eu podia recorrer?
Um pássaro branco parecido com uma pomba pousou em meus ombros como quem pousa nos ombros de uma estátua da Praça Conselheiro Rodrigues Alves. Seria a paz? A presença da paz? Olhei para o lado e vi a minha família se aproximando, por um instante achei que estivesse sofrendo novamente aquelas desastrosas alucinações. (...)
Eu não acreditava no que estava acontecendo. Depois de algumas péssimas horas nessa deserta ilha, a minha família guiada pelos ventos da Mãe Natureza conseguia me resgatar.
Esperança...

Rudhi Roth

CRÔNICA URBANA #2: PUNIÇÃO E RECOMPENSA


Caminhando pelas ruas de Guaratinguetá, adentrei-me no Grupo Espírita Amor e Luz, instituição religiosa de tradição na cidade. Pude receber o acolhimento dos seus membros. Toda terça-feira de 15hs às 16hs acontece uma reunião, onde se estuda o evangelho do Cristo segundo o Espiritismo, seguido de orações e passes. Benfazejo! É como você sai de lá. Nesta semana a reflexão foi sobre um tema que se parece com uma moeda de duas faces: punição e recompensa. Como ainda vibramos nessa crença de culpa e medo. Pare um pouco para pensar, reveja as suas atitudes. Quando erramos costumamos nos punir de forma consciente ou inconsciente. Dificilmente nos responsabilizamos. Para tentar sanar as nossas dívidas buscamos os jogos no intuito de recebermos a recompensa pelo sofrimento vivido.
___Nossa faz tanto tempo que estou nesse sofrimento, merecia uma recompensa?
As nossas esperanças são focadas em algum bicho sonhado ou em seis ou no máximo dez dígitos aleatórios. Acreditamos na sorte e no azar ao mesmo tempo. Nessas horas em que erramos ou em que acertamos por sorte esquecemos-nos da maior força presente no Universo, o AMOR.
Nós não estamos aqui para sofrer, mas também nós não estamos aqui para ser premiado, recompensado sem nenhum movimento proativo. Nada acontece por acaso.
Nós estamos aqui para brilhar através do AMOR. Para isso precisamos aceitar o PRESENTE. Se dou resistência, recebo resistência, se dou medo, recebo medo, se dou dor, recebo dor, se dou amor, recebo amor.
Escolhemos sermos felizes, afinal "gente é pra brilhar e não para morrer de fome".
Rudhi Roth